dezembro 15, 2021

UM NATAL PERFEITO

Quando o viu na repartição de Finanças pensou que se tinha enganado. Mas logo ele lhe acenara, sorrindo, não havia engano. 

"Que sítio tão pouco poético", pensou. Durante estes anos todos sempre tivera a certeza de o voltar a encontrar um dia, mas nos sonhos o reencontro era sempre no Guincho e ao pôr do Sol.
"Aos anos que a gente não se via!", exclamaram ambos, e riram (...)
Virou-se para ela e disse-lhe que estava cheio de pressa, viera apenas requisitar os novos modelos de recibos verdes, mas um dia destes havia de lhe telefonar para combinarem um encontro com mais tempo. Ela estremeceu e pensou que se calhar iam estar outros 40 anos sem se verem e, num impulso arrisca, "porque não vais passar o Natal lá a casa?". Logo se arrepende, que disparate, ele há-de ter família, mulher e filhos, netos, quem sabe, e vai já desculpar-se quando o vê tirar rapidamente a agenda do bolso, e perguntar-lhe a morada. (...)



Durante toda essa semana ela só pensou no jantar de Natal. O jantar de reencontro, 40 anos depois. Um clássico. Todas as revistas femininas tinham, para ele, receitas infalíveis. Folheou-as vezes sem conta. Hesitou entre um peru assado com champanhe e um peru assado com castanhas, mas acabaria por se decidir por uma velha receita que lhe ensinara a avó que vivia nos Açores, que aproveitava os miúdos do bicho e os refogava com miolo de pão. Comprou toalha nova, naqueles tons de vermelho e verde que as revistas exibiam, com muitos ramos de azevinho no centro, e levou o requinte ao ponto de entrar numa loja resplandecente de cristais e porcelanas e comprar duas flûtes para o brinde com champanhe francês, e duas chávenas da Vista Alegre para o café. Nada poderia falhar.

Ele chegou tarde e a barafustar, "que chatice, nem nestes dias  aqueles gajos me dão sossego! Só sabem é pensar em aumentos de ordenado, em subsídios de Natal, mas quando toca a trabalhar, tá quieto ó mau!" (...) e, franzindo o sobrolho, pergunta-lhe "que perfume puseste?", mas antes que ela tenha tempo de responder já ele continua "é que a minha rinite dá logo sinal, daqui a pouco começo a espirrar que nunca mais paro!". Ela quer então abrir um pouco a janela, mas ele grita "nem pensar!", com o frio que vai lá por fora então é que a garganta lhe ficava apanhada de todo.

É preciso começar a conversar, o jantar de Natal tem de ser perfeito, e ela pergunta-lhe se tem ido ao cinema, mas logo ele a desilude, há anos que não sabe o que é um filme, agora é só o trabalho, "o trabalho e as chatices da vida, um colesterol altíssimo, só posso comer cozidos e grelhados e nada de carnes, álcool nem uma gota, café nem cheirá-lo, e descafeinado ainda é veneno pior para o meu fígado", diz. Ela tenta sorrir (o peru no forno, o champanhe no frigorífico, o lote de café escolhido a rigor) e avança, timidamente, que o Natal é diferente, no Natal toda a gente pode infringir as dietas, mas ele dá uma gargalhada, o que é que tem ser Natal?, para ele é um dia como os outros, há anos que não dá nem recebe prendas, isso é bom para o pessoal mais novo, por isso nem agora dá tréguas à dieta, "até porque a minha saúde não admite brincadeiras!".


Ela não diz nada, sorri apenas, sorri para as flûtes de cristal, para as chávenas de Vista Alegre, para o perfume, para o azevinho da toalha, para os conselhos das revistas. Irá, num instante, grelhar umas  postas de pescada que há-de descongelar no micro-ondas, beberão água mineral em copos de vidro grosseiro - e, de repente, fica com a estúpida sensação de estar, com ele, a festejar mais um Natal em 40 anos de um casamento perfeito.



Saboreie uma bica escaldada,
 e leia esta e outras crónicas de costumes da sociedade portuguesa, escritas pela Alice Vieira.






"Estou sempre a escrever a minha vida"





Alice Vieira nasceu a 20 de março de 1943 em Lisboa. É licenciada em Germânicas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Iniciou a sua colaboração no suplemento juvenil do Diário de Lisboa com 13 anos e, a partir de 1969, dedicou-se ao jornalismo.
É uma das mais importantes escritoras de literatura juvenil tendo publicado cerca de 40 livros infantis e vendido cerca de um milhão de exemplares.
Em 1979 recebeu o Prémio de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança, com o livro Rosa, Minha Irmã Rosa. Em 1983, ganha o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil pelo seu livro Este Rei que Eu Escolhi e, em 1994, o Grande Prémio Gulbenkian pelo conjunto da sua obra. Mais recentemente foi a candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen.
Ultimamente tem-se dedicado à literatura para adultos, com o livro que hoje sugerimos, com Pezinhos de Coentrada, e com o livro de poesia Dois Corpos Tombando na Água, também disponíveis na Biblioteca Municipal.
Orienta regularmente oficinas de escrita criativa.
É membro da direção da Sociedade Portuguesa de Autores.






BOAS FESTAS





dezembro 10, 2021

OS ANÉIS DO MEU CABELO: A história de Mariza


Se passares pelo adro
No dia do meu enterro
Diz à terra que não coma 
Os anéis do meu cabelo
de, Anéis do meu cabelo, canção de Mariza

Mariza teve a ousadia de mexer nos santos do altar, um pecado que os espíritos mais conservadores nunca lhe perdoaram. Nuno Galopim, jornalista e crítico de música, justifica assim a distância que existe entre Mariza e o mundo do fado. "A forma como vestiu o fado, a cor, o cabelo, a atitude, tudo isso chocou de frente com essa ideia do fado higienizado que muitos consideravam ser o autêntico." Mariza recuperou o lado festivo que Amália também interpretava em palco e fê-lo viajando pelo flamengo e pelo mundo da música brasileira. "Apesar de Ó Gente da Minha Terra ser o seu tema emblemático, também sabe cantar a terra dos outros que, no fundo, acaba por ser a sua nesta sociedade global em que vivemos. Tudo aquilo faz sentido."

Para os mais tradicionalistas, Mariza continua a ser uma figura suspeita. "Não é unânime e ainda bem porque dos unânimes não reza a história."
O musicólogo Rui Vieira Nery identificou, logo à partida, uma série de condições muito hostis ao sucesso que se adivinhava desde a primeira hora. "Mariza sempre fez questão de cultivar a diferença, de criar uma certa distância que lhe foi devolvida pelo meio do fado. Ela nunca quis ficar no circuito tradicional da casa típica, do disco ocasional, do espetáculo de fado à antiga. Tinha uma confiança muito forte no seu talento, tinha outras ambições e nunca as escondeu."

Quando canta uma canção, é uma cantora. O que acontece é que ela foi entrando no mundo do fado por um caminho que é o dela. Quando canta fado, canta com aquele poder muito forte que vem de dentro, um poder africano.
Carlos do Carmo

Mariza dos Reis Nunes cresceu entre dois continentes. Dentro de casa estava em Moçambique, a terra onde nasceu, com a sua cultura, a sua música, a sua culinária. Mal saía à rua, mergulhava nas ruelas da Mouraria, na Lisboa antiga, no mundo do fado.
A convivência com dois universos tão diferentes moldou de forma indelével a sua personalidade como mulher e como artista. E o seu amor pela música, aliado ao dom de interpretar todos os géneros com a mesma alma, fizeram de Mariza uma cantora e fadista com tal arrojo e originalidade que, duas décadas depois de ter iniciado a carreira, continua a ser recebida em êxtase nas grandes salas de espetáculo de todo o mundo.

"Gostava de ser recordada como alguém que tentou, com o maior orgulho, 
pôr Portugal na história da música do mundo."
Mariza
Mariza, os amigos, a família e os músicos revelam-nos neste livro a mulher fora do palco, sem saltos altos nem vestidos de renda, com a mão que costumamos ver a agarrar o microfone segurando com força a do seu filho.


E esse livro, uma biografia de Mariza escrita por Dina Soares e editado pela Oficina do Livro,
pode ser requisitado na Biblioteca Municipal. 




Dina Soares, é jornalista desde 1987. Licenciada em Comunicação Social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, trabalhou em diversos meios de comunicação social, entre os quais os jornais Expresso, Diário de Lisboa e Semanário, na TVI, onde fez parte da equipa fundadora, e na Rádio Renascença. Foi por culpa de um curso sobre como escrever uma biografia, no Cenjor, e também devido ao gosto por contar histórias, que chegou até este livro, que é a sua primeira biografia.

"Mariza não é uma fadista convencional, 
é uma cantora excecional, extraordinária."
João Braga

Na Warner Music Portugal é Paulo Miranda quem trata dos discos de Mariza. O poder conquistador da artista começou por o conquistar a ele. "Eu não gosto de fado, gosto de Mariza. Até a conhecer, achava que o fado era muito chato, uma coisa dos meus pais." Bem mais difícil de cativar do que ele próprio, conta Paulo Miranda, era Napoleão e Mariza foi bem-sucedida. "Havia uma reunião anual da EMI em Madrid onde estava sempre o chefe máximo da empresa para a Europa, um francês com um péssimo feitio que tinha a alcunha de Napoleão. Sempre que lhe apresentávamos músicas novas, ele ouvia uns segundos e ordenava logo que se passasse à seguinte. Nesse ano, os meus colegas levaram o fado Ó Gente da Minha Terra, na interpretação do Concerto de Lisboa, que tem seis minutos e vinte segundos. Estamos a falar de uma pessoa que consumia música de todo o mundo e que tinha muito pouco tempo. Quando a faixa acabou, ele ficou em silêncio e disse: "ponham outra vez".

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi
de, Ó gente da minha terra, canção de Mariza







dezembro 03, 2021

PASSARAM AINDA ALÉM DA TAPROBANA




"D. Lourenço inspirou e sentiu o odor forte da maresia. Nunca vira uma praia de tamanha beleza. Sentiu-se embriagado com o som das aves e com a paisagem. Tinham desembarcado num lugar mítico, cheio de lendas e histórias que encantavam a corte de Lisboa. Havia séculos que se dizia que a Taprobana era o paraíso na Terra. Uma ilha misteriosa e afortunada, famosa pela canela e pelas pedras preciosas. Sabia que o pai, em Cochim, ficaria orgulhoso e, acima de tudo, que a boa nova agradaria a El-Rei D. Manuel!"



Eduardo Pires Coelho nasceu em Lisboa em 1974. Licenciado em Gestão de Empresas pela Universidade Católica Portuguesa e trabalha em mercados financeiros desde 1997. 
Em 2008 foi considerado o melhor analista de ações português pela Deloitte IRG Awads e, em 2010, o mais certeiro pelo Diário Económico, acumulando vários outros prémios em Espanha e na África subsariana.
Viveu um ano nos Estados Unidos e sete na África do Sul, perto do Cabo da Boa Esperança, tendo já visitado 56 países em quatro continentes.
Em 2011, foi o vencedor do Prémio Literário Esfera das Letras, com o romance O Segredo da Flor do Mar.
Apaixonado pelo mar, pela escrita e pela História, lança agora o seu segundo romance, Taprobana.

"O meu gosto pela História foi determinante para me dedicar
 a romances e thrillers históricos.
 A História de Portugal é rica e guarda muitos segredos e mistérios, 
desde os confins do Brasil até às ilhas mais recônditas da Indonésia."



Ernest Fonseka - médico e cientista do Sri Lanka a trabalhar em Portugal - é encontrado morto no momento em que vários dos seus pacientes terminais melhoram subitamente. A coincidência leva um alto funcionário da instituição, Rui Fernandes, a realizar um inquérito e a concluir que, na verdade, Ernest estava a testar um medicamento desconhecido, misteriosamente ligado à floresta do Sri Lanka. No cerne do enigma está Mafalda de Castro, uma jovem mestiça que, em finais do século XVI, testemunhou os desencontros entre os vários reinos dessa ilha que se chamou Taprobana e assistiu à sua ocupação pelos Portugueses, para depois se apaixonar por um fidalgo.
A pesquisa dos documentos encontrados no apartamento de Ernest revelará factos surpreendentes; mas, no rasto desse segredo guardado há séculos, Rui não escapará a um turbilhão de acontecimentos e perseguições, nem ficará a salvo do perigo e das malhas do amor.



A nobre ilha da Taprobana,
Já pelo nome antigo tão famosa,
Quanto agora soberba e soberana
Pela cortiça cálida, cheirosa,
Dela dará tributo à Lusitana
                                                           Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, canto X



novembro 24, 2021

ÚLTIMO OLHAR

O novo romance de Miguel Sousa Tavares, escrito em tempo de confinamento.



“O detonador do romance é um acontecimento passado em Espanha: 
O apedrejamento de um autocarro que levava idosos infetados pela covid. 
A partir daí senti necessidade de o situar de forma correta.”

Pablo tem 93 anos, viveu a Guerra Civil Espanhola, viveu os campos de refugiados da guerra em França, viveu quatro anos no campo de extermínio nazi de Mauthausen e depois viveu 75 anos tão feliz quanto possível, entre os campos de Landes, em França, e os da Andaluzia espanhola.
Inez tem 37 anos, é médica e vive um casamento e uma carreira de sucesso com Martín, em Madrid, até ao dia em que conhece Paolo, um médico italiano que está mergulhado no olho do furacão do combate a uma doença provocada por um vírus novo e devastador, chegado da China: o SARS-CoV-2.
Essa nova doença, transformada numa pandemia sem fim, vai mudar a vida de todos eles, aproximando-os ou afastando-os, e a cada um convocando para enfrentar dilemas éticos a que se julgavam imunes.

Fotografia de Tiago Miranda/Expresso

Miguel Sousa Tavares, nasceu no Porto, a 25 de junho de 1952.
Licenciado em Direito, viria a abandonar a advocacia pelo jornalismo e, mais tarde, o jornalismo pela escrita literária e pelo romance. Trabalhou em jornais, revistas e televisão, tendo conquistado diversos prémios como repórter, entre os quais o Grande Prémio de Jornalismo do Clube Português de Imprensa e o Tucano de Ouro, 1º Prémio de reportagem televisiva no FestRio - Festival de Televisão e Cinema do Rio de Janeiro.
Foi um dos fundadores da revista Grande Reportagem, que dirigiu durante dez anos, e que foi uma referência no panorama jornalístico português.
Publicou o seu primeiro romance, Equador, em 2010, que vendeu mais de 400 mil exemplares em Portugal, foi traduzido em 12 línguas, editado em cerca de 30 países e foi adaptado à televisão em Portugal e no Brasil.
Destacam-se ainda Rio das Flores, No Teu Deserto, Madrugada Suja e Cebola Crua Com Sal e Broa, todos disponíveis para empréstimo domiciliário, aqui na Biblioteca Municipal.



"Eu sou como o Arturo Pérez-Reverte. 
Escrevo porque gosto de contar histórias aos outros.
Se não tenho uma história para contar, e se o que me ocupa são apenas dramas psicológicos meus,
 acho preferível ir ao psicanalista a chatear os leitores".









novembro 19, 2021

JOSÉ SARAMAGO, 1922-2010



Começaram na passada terça-feira, dia do 99.º aniversário de José Saramago, as comemorações dos 100 anos do seu nascimento, celebrações que se vão prolongar até 16 de novembro de 2022. Para assinalar o dia do seu aniversário, alunos de mais de uma centena de escolas portuguesas, de Espanha, Brasil e de alguns países da América Latina, fizeram a leitura, em simultâneo, do conto infantil A maior flor do mundo, escrito por José Saramago. 
A 16 de novembro de 2022, uma centena de escolas do ensino secundário irão promover a leitura, em simultâneo, de páginas dos seu romances Memorial do convento e de O ano da morte de Ricardo Reis e será plantada a centésima oliveira na sua terra natal.
Consolidar a presença do escritor na história cultural e literária, em Portugal e no estrangeiro, e prestar homenagem à sua figura como cidadão são os objetivos das comemorações.

A programação do centenário pode ser consultada em: www.josesaramago.org




A Biblioteca Municipal sugere aos seus leitores a leitura da Biografia do único escritor de língua portuguesa laureado com o Nobel da Literatura (1998), apreciado em vida pelo próprio.
O livro, escrito por João Marques Lopes, convida-nos a acompanhar o percurso de José Saramago, desde o seu nascimento, na aldeia da Azinhaga, na Golegã, até à mudança para Lanzarote, nas Canárias. Tem prefácio de João Tordo, vencedor do Prémio Literário José Saramago em 2009, e ilustrações da autora luso-britânica Lucy Pepper.
Através deste livro, descobrimos toda a obra de Saramago, em paralelo com o seu percurso, ficando a conhecer em detalhe a vida daquele que é um dos mais importantes escritores da história da literatura portuguesa.


"É um trabalho notável e seriamente interessante porque, 
para além dos inúmeros episódios desconhecidos 
(e, alguns, de teor eminentemente cómico), quando chegamos ao final 
sentimo-nos, mesmo que com ele nunca tenhamos privado, 
muito mais próximos do escritor".
João Tordo, 
Prémio Literário José Saramago 2009



João Marques Lopes é doutorado em Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 
É autor de várias biografias de escritores portugueses, como, Almeida Garrett, Eça de Queirós e Fernando Pessoa, bem como de diversos artigos e comunicações em revistas e colóquios.
Trabalhou como docente de literaturas lusófonas na Universidade de Oslo.
Licenciado em Filosofia e em Ensino da Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi também docente no ensino secundário ao longo de uma década.



"Trata-se de um trabalho honesto, sério, sem especulações gratuitas. 
Ao cabo de trinta e cinco anos, pela primeira vez, o caso dos despedimentos
 de jornalistas do Diário de Notícias, de que fui diretor-adjunto, 
é corretamente descrito no livro de João Marques Lopes.
Fiquei muito satisfeito com a Leitura."
                                                                                                                    José Saramago



novembro 10, 2021

UMA DECLARAÇÃO DE AMOR À MINHA ILHA

 

Joel Neto nasceu a 3 de março de 1974 na Ilha Terceira, Açores. Aos 18 anos mudou-se para Lisboa para estudar Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.
Em 2012 voltou aos Açores determinado a dedicar-se inteiramente à literatura. Vive desde então no lugar dos Dois Caminhos, freguesia da Terra Chã, concelho de Angra de Heroísmo.
Tem dois cães, um pomar, um jardim de azáleas.
Colunista de alguns dos principais jornais nacionais, publica regularmente em revistas e antologias literárias portuguesas e estrangeiras. Tem livros e contos traduzidos e/ou publicados no Reino Unido, Espanha, Itália, Polónia, Brasil e Japão.
Em 2019 foi o vencedor do Grande Prémio de Literatura Biográfica da Associação Portuguesa de Escritores, com o romance O Terceiro Servo.

O leitor poderá encontrar na nossa Biblioteca, para empréstimo domiciliário, os seguintes títulos:


Do romance que hoje divulgamos e que foi finalista do
  Prémio Literário Fernando Namora 2015
a escritora Alice Vieira referiu que 
"Quando começamos a ler não conseguimos largar.
 Uma verdadeira epopeia".




Açores, 1980. Quando um grande terramoto faz estremecer a ilha Terceira, o pequeno José Artur Drumonde dá-se conta de que não consegue sentir a terra tremer debaixo dos pés. Inexplicavelmente, esse mistério há-de acompanhá-lo durante toda a vida. Mas, entretanto, é hora de participar na reconstrução da ilha, tarefa a que os passos e os ensinamentos do avô trazem sentido de missão.
Já professor universitário, carregando a bagagem de um casamento desfeito e uma carreira em risco, José Artur volta aos Açores. Passaram-se 35 anos. O amor à terra e os mistérios do passado depressa o arrancam à melancolia, e ele viaja pela ilha com a paixão que há muito lhe faltava, redescobrindo a magia da paisagem e idealizando a beleza silenciosa da mulher que o hospeda.
Durante as obras de remodelação da casa do avô, é descoberto um cadáver que o levará em busca dos segredos da família, da história oculta do arquipélago e de uma seita ritualista com ecos do mito da Atlântida. Mas é nos ódios que separam dois clãs rivais que o professor tentará descobrir tudo o que os anos, a insularidade e os destroços do grande terramoto haviam soterrado...

Ilha Terceira, Açores

"É uma declaração de amor à minha ilha e às nossas ilhas. Arquipélago, que cobre 70 anos de narrativa e se centra enfim nos Açores do século XX, é sobre isso. Tem, principalmente para um leitor de fora, personagens pitorescas, cenários exóticos, tradições ancestrais, sotaques divertidos, seitas ocultas, movimentos políticos, descobertas arqueológicas e uma suspeita razoável de que, afinal, podem ter vivido nos Açores outros povos antes da chegada dos portugueses no exíguo mundo de Quatrocentos. Mas é, acima de tudo, sobre a redentora paisagem destas ilhas assoladas por vulcões, terramotos e tempestades, mas sempre capazes de se renovar, de resistir, de vencer o desespero".








novembro 05, 2021

FOI NO CHIADO QUE TUDO COMEÇOU

 
Lisboa, Chiado, anos 1950

"Pode-se dizer que a coisa tinha começado mais ou menos vinte anos antes.
Foi no Chiado. Em Pleno Chiado. O esticão tinha sido tão forte que se estatelou no chão, desamparada. O fio de ouro com a cruz de brilhantes tinha sido arrancado pelo ladrão que se pisgou com tal velocidade que o pessoal circundante tinha parado a olhar, olha o gajo, parece o Zatopek. (...)
Foi assim que Amélia conheceu Amadeu Silveira, um jovem e promissor agente da PIDE, sob a capa de um funcionário da Companhia Colonial de Navegação. Com cartão-de-visita e tudo. Tinha 31 anos, era alto e, se quisermos percorrer a descrição da personagem com um paleio meio vulgar, tinha ombro largo. O que destoava daquilo tudo era o coxear. Ligeiramente, mas coxeava. Um joelho filho-da-puta".




Pós-guerra. Num Portugal cinzentão, de costumes apertados como coletes-de-forças, uma jovem tem um encontro acidental com um agente da PIDE por quem se apaixona. Foi no Chiado que tudo começou.
A paixão, e subsequente abandono, terá consequências.
A vida recomeçará com outos contornos num outro lugar.
À medida que o tempo vai passando, acompanhamos, através das vidas que o livro acolhe, o bater de coração deste país, que só em Abril de 1974 se irá reencontrar consigo mesmo.
Passam perante os nossos olhos as décadas de 50, 60 e 70, com todo o seu arraial de vivências, acontecimentos, tropeções, guerras, músicas, cantores, ruturas e renascimentos.
As personagens, com todos os seus dramas, alegrias e tristezas, vão-nos contando o que era viver neste Portugal asfixiado pela mais velha ditadura da Europa. 



Alice Brito nasceu em 1954 em Setúbal. É advogada, defensora da causa feminista e cronista em periódicos on-line.
Em 2012 publicou As Mulheres da Fonte Novao seu primeiro livro. Seguiu-se, em 2015, O dia em que Estaline encontrou Picasso na Biblioteca, que pode ser requisitado para leitura domiciliária.

A Noite Passada, o seu terceiro romance, e que hoje sugerimos como leitura para o seu fim de semana,  aborda pela primeira vez o 25 de Abril e os meses intensos que se lhe seguiram. Mas não só. O Portugal do pós-guerra até à revolução também é narrado, sobretudo ao nível do quotidiano das suas personagens.

Um romance marcante sobre um país e uma família ameaçados pela ditadura.
Porque a história também se escreve nos recantos mais improváveis.

Ilustração de Deborah Dewit



Bom fim de semana com boa leitura



outubro 29, 2021

MAS MESMO ASSIM, EVELYN, PORQUÊ? PORQUÊ EU?


Taylor Jenkins Reid nasceu a 20 de dezembro de 1983, na cidade de Acton, em Massachusetts, Estados Unidos da América. 
Antes de se dedicar à escrita a tempo inteiro, foi assistente de casting, trabalhou numa produtora cinematográfica, numa empresa de tecnologia e numa escola secundária.

O romance que hoje sugerimos para leitura do seu fim de semana é o seu quinto livro e foi finalista do Prémio Goodreads para Melhor Romance Histórico, Livro do Mês da Amazon e um dos Livros do Ano para o clube de leitura Book of the Month. Foi, igualmente, um dos romances escolhido pela atriz Reese Witherspoon para integrar o seu clube de leitura. Uma produtora está a desenvolver uma adaptação deste romance para uma série de televisão.


E qual é a nossa sugestão de leitura para o seu fim de semana?



Evelyn Hugo, uma das maiores estrelas de Hollywood, agora a aproximar-se dos 80 anos, decide finalmente contar tudo sobre a sua vida recheada de glamour e de uma boa dose de escândalos. Quando escolhe a desconhecida Monique Grant para escrever a sua história, todos ficam surpreendidos, incluindo a própria jornalista. Porquê ela? Porquê agora?
Determinada a aproveitar a oportunidade para impulsionar a sua carreira, Monique regista o relato de Evelyn com fascínio e admiração. Da chegada a Hollywood, no início da década de 1950, à decisão de abandonar o mundo do espetáculo 30 anos depois, incluindo, claro está, os seus sete casamentos, a vida de Evelyn é repleta de ambição desmedida, amizades improváveis e um grande amor proibido.
À medida que a história de Evelyn se aproxima do final, torna-se claro que a sua vida está ligada à de Monique, de uma forma trágica e irreversível.

"- Compreende o que estou a dizer-lhe? Quando nos é dada uma oportunidade de mudarmos a vida, temos de estar prontas para fazer o que for preciso para que isso aconteça. O mundo não nos dá coisas, nós agarramos as coisas. Se vai aprender alguma coisa comigo, provavelmente deverá ser isso."

"Entusiasmante, comovente e recheado do glamour da Velha Hollywood, 
O Sete Maridos de Evelyn Hugo é um dos livros mais cativantes do ano."
                                                                                                             Buzzfeed

Pintura de Joseph Lorusso

Tudo boas razões para nos visitar e 
requisitar o livro.


outubro 21, 2021

PRÉMIO CAMÕES 2021

Prémio Camões 2021 atribuído à escritora moçambicana 
Paulina Chiziane


Dizem que sou romancista e que fui a primeira mulher moçambicana a escrever um romance (Balada de Amor ao Vento, 1990), mas eu afirmo: sou contadora de estórias e não romancista. Escrevo livros com muitas estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte. Nasci em 1955 em Manjacaze. Frequentei estudos superiores que não concluí. Actualmente vivo e trabalho na Zambézia.
Paulina Chiziane
                                  

Pode encontrar na nossa Biblioteca Municipal o livro da escritora


Guerra. Destruição. Miséria. Sofrimento. Humilhação. Ódio. Superstição. Morte. Este é o cenário dantesco, boscheano, que encontramos nas páginas de "Ventos do Apocalipse". As palavras fortes, cruas, incisivas, dilacerantes e delirantes da autora levam-nos a questionar-nos quanto de ficção existirá no realismo das descrições deste palco apocalíptico em que a guerra mais aberrante será talvez a de dois povos, os mananga e os macuácua, colocados entre dois fogos e não sabendo quem os defende e quem os ataca. Paulina Chiziane é uma contadora nata de estórias. Consegue levar-nos ao âmago do mais baixo dos mais baixos degraus de degradação do ser humano. Com ela percorremos as vinte e uma noites de pesadelo e tormentos que foi o êxodo dos sobreviventes de uma aldeia. Através dela aprendemos a respeitar Sixpence, tornado o herói simbólico, emblemático, e líder venerado desses fugitivos. Pela sua mão desvendamos o mundo de Minosse, a última mulher que restou ao régulo Sianga, e ouvimos as palavras sábias de Mungoni, o adivinho. E compreendemos a loucura de Emelina, a assassina dos próprios filhos. São da autora estas palavras ditas por uma das personagens em absoluto desespero: «Se o homem é a imagem de Deus, então Deus é um refugiado de guerra, magro e com o ventre farto de fome. Deus tem este nosso aspecto nojento, tem a cor negra da lama e não toma banho à semelhança de nós outros, condenados da terra. O Diabo, sim, esse deve ser um janota que segura os freios da vida dos homens que sucumbem.» O leitor julgará.

In, Wook



LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...