junho 17, 2026

REFÚGIO NO TEMPO - UMA VIAGEM AO PASSADO QUE QUESTIONA O FUTURO


Uma Biblioteca é muito mais do que um lugar onde se guardam livros. É um espaço de descoberta, de encontro com diferentes culturas, épocas e formas de olhar o mundo. Entre as suas principais funções está a de dar a conhecer novos autores, promovendo vozes consagradas e revelando escritores menos conhecidos, mas igualmente capazes de surpreender e cativar os leitores.


É o caso do autor que hoje apresentamos, o escritor búlgaro Gueorgui Gospodinov, nascido a 7 de janeiro de 1968, na cidade de Yambol
Licenciou-se em Filologia Búlgara na Universidade de Sófia e iniciou a sua carreira literária como poeta na década de 1990.
Considerado uma das vozes mais importantes da literatura europeia contemporânea, é poeta, romancista, contista, dramaturgo e ensaísta, tendo a sua obra sido traduzida em mais de vinte e cinco línguas.
A sua obra é profundamente marcada pela experiência da Bulgária durante o período comunista e pelas transformações políticas e sociais do continente europeu.
Ler Gospodivov é entrar num universo literário onde as pequenas histórias do quotidiano se cruzam com as grandes questões da humanidade.
Como afirmou a escritora Olga Tokarczuk, a sua escrita é "uma literatura requintada sobre a nossa perceção do tempo e da sua passagem."


O seu romance que hoje divulgamos, Refúgio no Tempo,
 foi o vencedor do Internacional Booker Prize 2023,
e obteve o Premio Strega Europeo 2021


Sobre ele, a presidente do júri, Leila Slimani, declarou: "O nosso vencedor é um romance brilhante, cheio de ironia e melancolia. É um trabalho profundo que lida com uma questão muito contemporânea: o que nos acontece quando as nossas memórias desaparecem?"


"No andar de cima instalaram-se os anos 50. Ali era o reino de Elvis Presley, de Fatt Domino, Dizzy Gillespie, Miles Davis, onde se podia ouvir toda aquela maravilhosa mistura de jazz, rock and roll, pop, bem como o sinfónico, mas já fora de moda, Frank Sinatra. Ali estavam Intriga Internacional, Hitchcook, Gary Grant, As Noites de Cabíria, Fellini, Mastroianni, Brigitte Bardot, Dior... O mundo estava a recuperar da guerra e tinha vontade de viver.
Uma parte do mundo conseguia fazê-lo com uma relativa facilidade. Para a outra parte, havia uma zona separada ao fundo do corredor, alguns apartamentos destinados aos países do Leste. Um para os anos 50 da Europa de Leste, um outro só para os anos 50 soviéticos (bem financiados, aliás). De maneira semelhante, foram reconstituídos os anos 50 na China."


Refúgio no Tempo é um daqueles romances que desafiam as fronteiras entre a memória, a História e a imaginação. Gaustine cria uma clínica para doentes de Alzheimer onde cada piso recria uma década do século XX, com os seus móveis, músicas, jornais e objetos, permitindo aos pacientes reencontrarem as suas recordações. Mas aquilo que começa como uma terapia para a perda de memória transforma-se numa reflexão profunda sobre a sociedade contemporânea. A nostalgia deixa de ser um sentimento individual e converte-se num fenómeno coletivo: países inteiros desejam regressar ao seu passado, escolhendo as décadas em que gostariam de voltar a viver.
O autor lança então uma pergunta inquietante: O que acontece quando uma sociedade prefere refugiar-se nas memórias em vez de enfrentar o futuro?


Será possível viver apenas de recordações?

Uma leitura fascinante para quem aprecia romances inteligentes, originais e capazes de lançar um olhar crítico sobre o nosso tempo através da memória do passado.



junho 12, 2026

NOITES BRANCAS

 Para leitura do seu fim de semana, sugerimos um livro curto, delicado e profundamente humano.
é uma das mais belas histórias sobre a solidão, o sonho e a esperança no amor.


Mas será o amor suficiente para transformar um sonho em realidade?

Nesta novela, acompanhamos um jovem solitário que vagueia pelas ruas de São Petersburgo durante as luminosas noites de verão. Numa dessas caminhadas, conhece Nástienka, uma jovem que também carrega as suas inquietações de desejos. Ao longo de quatro noites e uma manhã, nasce entre ambos uma ligação intensa, feita de confidências, ilusões e promessas.
Publicado em 1848, é uma história breve, mas cheia de emoção, que nos faz refletir sobre a necessidade de sermos vistos, compreendidos e amados.


Em 1957 o realizador italiano Luchino Visconti adaptou esta obra ao cinema, com Marcello Mastroianni e Maria Schell nos protagonistas e ganhou o Leão de Prata no Festival de Cinema de Veneza. A banda sonora foi assinada por Nino Rota, o compositor preferido de Federico Fellini.

Uma leitura perfeita para quem acredita no poder dos encontros inesperados e na beleza, por vezes dolorosa, dos sonhos



"Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites que apenas são possíveis quando somos jovens, amigo leitor. O céu estava tão cheio de estrelas, tão luminoso, que quem erguesse os olhos para ele ver-se-ia forçado a perguntar a si mesmo: será possível que sob um céu assim possam viver homens irritados e caprichosos?"

Fiódor Dostoiévski nasceu a 11 de novembro de 1821, em Moscovo, na Rússia e é hoje considerado um dos maiores escritores da literatura universal. A sua obra mergulha profundamente na alma humana, explorando temas como a culpa, a liberdade, a fé, a pobreza, o sofrimento e a redenção.
Filho de um médico miliar, cresceu num ambiente disciplinado, mas desde cedo revelou uma grande sensibilidade literária. Formou-se em Engenharia Militar, em São Petersburgo, mas abandonou a carreira para se dedicar à escrita.
Em 1849, a sua vida sofreu uma reviravolta dramática: foi preso por participar em círculos intelectuais considerados subversivos pelo regime czarista. Condenado à morte, viveu o trauma de um falso fuzilamento, sendo a sentença comutada, no último momento, para quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria. Esta experiência marcou profundamente a sua visão do mundo e influenciou todo a sua obra literária.
Após o regresso do exílio, Dostoiévski enfrentou dificuldades financeiras, problemas de saúde já que sofria de epilepsia, e uma forte dependência do jogo. Apesar disso, escreveu alguns dos romances mais importantes da história da literatura, que o leitor pode encontrar na nossa Biblioteca Municipal. 
Os seus romances são verdadeiras explorações filosóficas e tratados psicológicos do comportamento humano. Por isso é frequentemente estudado não só na literatura , mas também na filosofia, psicologia e teologia.
Fiódor Dostoiévski morreu a 9 de fevereiro de 1881, em São Petersburgo, deixando uma obra que continua a fascinar leitores em todo o mundo, que reconhecem nele um autor que soube compreender como poucos as contradições da condição humana.

Noites Brancas 
é sobre como um momento breve de amor, ou melhor, 
como um momento breve de ilusão de amor, pode deixar marcas para a eternidade.




junho 05, 2026

UMA HEROÍNA ESQUECIDA PELA HISTÓRIA



Há livros que nos transportam para lugares distantes, não apenas geografias diferentes, mas formas diferentes  de sentir, resistir e recordar. O livro que hoje divulgamos junto dos nossos leitores, A Mulher sem Sepultura, da escritora argelina Assia Djebar, é uma dessas obras raras que abre portas para outras latitudes e outras vozes, tantas vezes ausentes das estantes mais procuradas. 
Inspirado na história real de Zoulikha, heroína da resistência argelina desaparecida durante a luta contra a ocupação francesa, este romance mistura memória, testemunho e poesia para reconstruir a vida de uma mulher cuja ausência continua viva. 
Mais do que contar uma história individual, Assia Djebar dá voz às mulheres silenciadas pela guerra, pela tradição e pelo tempo.
A escrita é delicada, intensa e profundamente humana. Ao longo das páginas, o leitor entra numa Argélia marcada pela violência e pela esperança, mas também descobre emoções universais tais como a coragem, a perda, a dignidade e a necessidade de preservar a memória.

Ler A Mulher sem Sepultura é também descobrir uma literatura diferente da habitual tradição europeia ou norte-americana. É viajar através da cultura magrebina, conhecer outras realidades históricas e perceber como a literatura pode aproximar mundos aparentemente distantes.
Para quem gosta de romances marcantes, de histórias de mulheres fortes e de livros que nos ajudam a olhar o mundo de uma forma mais ampla, esta é uma leitura indispensável.


"Assia Djebar, oscilando entre a esperança e o desespero, narra de forma emocionante a luta travada pelas mulheres para poderem, finalmente, olhar de frente o Sol"
                                                                           Le Monde


Assia Djebar, pseudónimo literário de Fatema Zohra Imalayen, nasceu a 30 de junho de 1936, na cidade de Cherchell, na Argélia, então sob o domínio colonial francês, e tornou-se uma das mais importantes vozes da literatura francófona do século XX.
Escritora, historiadora, cineasta e intelectual, dedicou grande parte da sua obra à condição das mulheres argelinas, à memória coletiva e às marcas do colonialismo.
Filha de um professor, teve acesso à educação numa época em que muitas raparigas argelinas eram privadas da escola. Estudou em Argel e mais tarde na prestigiada École Normale Supérieure, em Paris, sendo uma das primeiras mulheres argelinas a frequentar aquela instituição.
Ativista na sua juventude, foi expulsa temporariamente daquela instituição após participar em greves estudantis a favor da independência da Argélia.


Em 2005, Assia Djebar foi eleita para a Academia Francesa, tornando-se a primeira autora do Magrebe a integrar esta instituição, um reconhecimento internacional da importância da sua obra literária e intelectual.
O seu nome foi apontado como forte candidato ao Prémio Nobel da Literatura por inúmeras vezes e os seus livros estão traduzidos em 23 línguas.
Faleceu em Paris, a 6 de fevereiro de 2015, mas continua a ser uma referência essencial da literatura africana e francófona contemporânea e uma das maiores vozes da emancipação das muçulmanas. Os seus livros permanecem atuais pela forma como abordam temas como a liberdade, a memória, a guerra e o papel das mulheres na sociedade.


Porque a Literatura não tem fronteiras, cada novo livro vindo de outras latitudes é uma oportunidade de alargar horizontes.





maio 27, 2026

DESGRAÇA

Entre a culpa, a solidão e a tentativa de redenção, Desgraça é um daqueles romances que não deixam o leitor indiferente.
Escrito por J.M.Coetzee, este livro mergulha-nos numa África do Sul em mudança, marcada por tensões sociais, desigualdades e feridas abertas.
Com uma escrita intensa, elegante e profundamente humana, o autor constrói um romance inquietante, capaz de provocar desconforto e reflexão. Este romance não oferece respostas fáceis e talvez seja precisamente isso que o torna tão marcante.
Vencedor do Booker Prize em 1999, este é um livro para quem aprecia literatura que desafia, questiona e permanece connosco muito depois da última página.
Este romance, Desgraça está incluído na lista dos 100 melhores romances, indicado pelo jornal The Guardian.
Em 2008 foi adaptado ao cinema pelo realizador Steve Jacobs, tendo o ator John Malcovich no papel de David Lurie.

"Uma obra-prima... talvez o melhor romance a arrecadar o Booker em uma década"
                                                                                                                         The Independent


Depois de anos a ensinar poesia romântica na Universidade Técnica da Cidade do Cabo, David Lurie, um professor de meia-idade divorciado por duas vezes, tem um romance impulsivo com uma aluna. O caso entretanto azeda, e David é acusado de assédio sexual e convocado a comparecer perante uma comissão disciplinar. Disposto a admitir a sua culpa, mas recusando-se a ceder à pressão para se arrepender publicamente, David demite-se e retira-se para a pequena propriedade isolada da sua filha Lucy. 
Durante algum tempo, a influência da filha e os ritmos naturais da quinta prometem trazer harmonia à sua vida dissonante. Mas as tentativas de David para se relacionar com Lucy e com uma sociedade feita de novas complexidades raciais são perturbadas pela violência de um ataque selvagem que os vais transformar, a ele e à sua filha, de uma maneira que jamais poderia prever.


J. M Coetzee nasceu a 9 de fevereiro de 1940 na Cidade do Cabo, na África do Sul. 
Considerado um dos maiores escritores contemporâneos, destacou-se pela profundidade moral e filosófica das suas obras centradas em temas como a violência, a culpa, o poder, o colonialismo e a condição humana.
Formado em Literatura e Linguística, foi professor de Literatura na Universidade da Cidade do Cabo, tendo mais tarde mudado para a Austrália, país onde adquiriu a nacionalidade.
A sua obra é marcada por uma escrita sóbria e intensa. Os seus romances abordam as tensões sociais e políticas da África do Sul, especialmente durante e após o apartheid, mas os seus temas alcançam uma dimensão universal. 
Em 2003 recebeu o Prémio Nobel da Literatura, sendo reconhecido pela forma como retrata "o envolvimento surpreendente do estranho"
Coetzee foi também o primeiro escritor a vencer por duas vezes o Booker Prize, um dos mais importantes prémios da literatura em língua inglesa.

Ler J.M. Coetzee é entrar numa literatura exigente, humana e profundamente atual, que convida o leitor a refletir sobre a sociedade, a ética e os limites da humanidade.




maio 22, 2026

CORPOS ESTRANHOS

Num tempo em que o mundo ainda vive as consequências da pandemia de COVID-19 e observa com inquietação o reaparecimento de surtos associados ao Hantavirus, a leitura de Corpos Estranhos, do historiador Simon Schama, torna-se surpreendentemente atual. 
Neste livro, que hoje divulgamos, o autor conduz-nos por episódios da História em que o medo da doença, do contágio e do "outro" moldou sociedades inteiras. Mais do que falar apenas de medicina, Simon Schama mostra como os corpos considerados "estranhos", diferentes e desconhecidos despertam reações de medo, exclusão e desconfiança. É impossível não estabelecer um paralelismo com o século XXI.
Durante a pandemia de COVID-19, assistimos a fronteiras fechadas, isolamento social, suspeição perante o próximo e uma avalanche de informação e desinformação. O vírus transformou hábitos, alterou relações humanas e expôs fragilidades sociais e políticas. Tal como Simon Schama demostra ao longo da História, a doença nunca é apenas biológica: ela revela medos profundos, desigualdades e tensões coletivas.



O paralelismo entre a obra "Corpos Estranhos" de Simon Schama e as crises sanitárias do século XXI, como a pandemia de COVID-19, o recente surto de hantavírus num navio de cruzeiro e ainda mais recentemente o surto de ebola na República Democrática do Congo, comprova a tese central do livro: as reações humanas ao contágio repetem-se de forma quase idêntica ao longo dos séculos. O medo não é apenas biológico; é social, político e psicológico.


O verdadeiro protagonista deste livro é Waldemar Haffkine, um microbiologista judeu, nascido em Odessa (atual Ucrânia), que trabalhou no prestigiado Instituto Pasteur em Paris. Haffkine, louvado em Inglaterra como "o salvador da humanidade", viajou para a Índia britânica e criou as primeiras vacinas em massa do mundo contra a cólera e a peste bubónica, salvando milhões de vidas. 


"Uma história global da vacinação, ao longo da qual ficamos a conhecer o seu companheiro de viagem mais frequente: a desconfiança."
                                                                                           The Economist



Simon Schama nasceu em Londres, a 13 de fevereiro de 1945, no seio de uma família judaica com origens lituanas e turcas. É considerado um dos mais reconhecidos historiadores contemporâneos, distinguindo-se pela capacidade de transformar a História numa narrativa viva, acessível e profundamente humana.
É professor universitário de História da Arte e de História na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. As sua obras, várias vezes premiadas, estão publicadas em quinze línguas.
Escreveu e apresentou quarenta filmes para a BBC, PBS e Canal de História sobre temas tão diversos como Tolstói, a política americana e Shakespeare, e ganhou um Emmy em 2007 por The Power of Art.
Conhecido pelo estilo apaixonado e eloquente, Simon Schama procura mostrar que a História não é apenas uma sucessão de datas e acontecimentos, mas um espelho das emoções, dos medos e das contradições humanas. 
Em 2019, foi armado cavaleiro do Império Britânico, pelo seu contributo como historiador.



Escrito no rescaldo da pandemia de COVID-19, Schama utiliza o passado para nos mostrar que o medo do contágio, a desconfiança na ciência e a resistência às vacinas não são fenómenos novos, mas sim constantes históricas.







maio 07, 2026

AS LIGAÇÕES CULINÁRIAS




E se a cozinha fosse o palco de uma rivalidade amorosa?

"- É simples, é muito simples. O facto de aquelas ondas de odor a salsa terem sido capazes de penetrar na minha varanda através da barreira aromática de jasmim, gardénia e Deus sabe que mais flores é que você tem do seu lado, já é de per si um indicador de uma considerável quantidade de salsa, o que, por sua vez, indica que essa salsa se destina a salada e requer um longo e minucioso corte antes de tombar na saladeira, com um pouco de alho - um ou dois dentes, esmagados e misturados com mão de mestre - e uma pitada de sal, um pouco de azeite e sumo de limão para lhe dar o toque final."



Em As Ligações Culinárias, Andreas Staïkos convida-nos para uma história deliciosa, onde o amor, o ciúme e a sedução se misturam com receitas requintadas e jogos de poder.
Neste romance divertido, dois homens apaixonam-se pela mesma mulher e entram numa competição inesperada: Conquistar o seu coração através da arte culinária. Entre pratos elaborados, estratégias subtis e encontros cheios de humor, a narrativa transforma a gastronomia numa linguagem de sedução e numa arma de rivalidade.
Este romance destaca-se por incluir receitas completas da culinária tradicional grega no final de cada capítulo, como a salada de salsa, folhas de videira recheadas e alcachofras à Constantinopla.

Uma história leve, inteligente e cheia de ironia é a 
nossa sugestão de leitura para o fim de semana


Andreas Staïkos nasceu em 1944, em Atenas, Grécia, e é um reconhecido escritor, dramaturgo e argumentista grego, cuja obra se distingue pelo humor refinado, pela ironia e por uma atenção especial aos prazeres da vida, especialmente a gastronomia, o amor e a convivência social.
Formou-se em Direito e Ciência Política, mas cedo se dedicou à escrita e ao teatro. Ao longo da sua carreia, destacou-se sobretudo como dramaturgo, tendo as suas peças sido representadas em diversos países europeus. Paralelamente, ganhou notoriedade internacional como romancista, sendo traduzido em várias línguas. 

A nossa sugestão de leitura para o seu fim de semana, As Ligações Culinárias, foi, em 2010 adaptada ao cinema (em grego: Epikindynes Mageirikes) e realizado por Vassilis Tselemegos.


Uma leitura saborosa, perfeita para quem acredita
 que os grandes encontros e desencontros 
acontecem muitas vezes à volta de uma mesa



abril 29, 2026

OS ALFERES

"Sabia lá eu o que era Timor... Uma vaga ilha no termo do mundo, verdejante e quente, exótica a mais não poder, mas em paz, sobretudo em paz. Por esses dias, fui muito felicitado. Perguntavam-me que empenhos tinha arranjado, que influências teria enternecido... Nada, a minha sorte deveu-se ao castigo duma falta militar análoga ao abandono de posto, numa vez em que me coube ser oficial de dia no meu quartel. Por uma destas ironias em que os costumes militares são vezeiros, elegendo por sistema o que for adverso ao senso comum, como efeito dos cinco dias de prisão a que então fui condenado, coube-me Timor na rifa." 


Publicado originalmente em 1989, Os Alferes, do escritor Mário de Carvalhoé um livro do contos marcante da literatura portuguesa contemporânea, onde o seu autor nos conduz a cenários de guerra e de ocupação colonial, explorando as contradições humanas em situação limite.

Três histórias. Três jovens oficiais. 
Três momentos em que a guerra revela o melhor e o pior do ser humano.

As histórias que compõem este livro, que hoje divulgamos, decorrem em cenários da Guerra Colonial, em África, Angola e Timor, conflito esse que foi longo, desgastante, que marcou profundamente a sociedade portuguesa, e foi uma das principais causas que conduziram à Revolução de 25 de Abril.
Os jovens oficiais aqui retratados vivem a incerteza, o medo e o absurdo da guerra. São homens comuns, muitas vezes sem compreender muito bem o sentido da missão que lhes foi confiada, o que ajuda a entender o ambiente de desgaste e contestação que antecedeu a revolução.

Este livro foi publicado no Brasil, França e Itália, país onde recebeu o Prémio Internazionalle Città di Cassino.

O primeiro conto, "Era uma vez um Alferes", foi adaptado por duas vezes para cinema pelos realizadores Luís Filipe Costa e Júlio Alves, e uma vez para teatro, por Otile Ehret.


Mário de Carvalho nasceu a 25 de setembro de 1944 em Lisboa. Licenciou-se em Direito e viu o serviço militar interrompido pela prisão. Desde muito cedo esteve ligado aos meios da resistência contra o salazarismo, foi condenado a dois anos de prisão, tendo de se exilar após cumprir a maior parte da pena. Depois do 25 de Abril, exerceu advocacia em Lisboa. 
O seu primeiro livro causou surpresa pelo inesperado da abordagem ficcional. A sua obra tem diversos géneros literários (romance, conto, novela e teatro), percorrendo várias épocas e ambientes, com uma escrita extremamente versátil. 
Os seus livros estão traduzidos em várias línguas.
Recebeu, ao longo da sua carreira vários prémios, entre eles: 
  • Prémio Fernando Namora  
  • Prémio Vergilio Ferreira
  • Prémio Giuseppe Acerbi e Citá Cassino (em Itália)
  • Prémio Pen Clube
  • Prémio Internacional Pégaso
Em 9 de junho de 2014 foi agraciado com o grau de Grande-Oficial da Ordem Miliar de Sant'Iago da Espada e a 22 de novembro de 2021, foi agraciada com o grau da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.


"Os Alferes" é uma leitura breve, intensa e inesquecível sobre escolhas, medo e humanidade.
Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.


Ler este livro é compreender melhor o caminho 
que levou Portugal à democracia  



abril 24, 2026

ABRIL


"Não conheço quem não tenha "o dia mais feliz da minha vida". (...) Mas é muito frequente encontrar quem diga sem rodeios que o 25 de Abril foi o dia mais feliz da sua vida. Pode ser que se trate de uma declaração política para os contemporâneos ou para os descendentes. (...)
Este facto traduz a importância da data e o significado do acontecimento. Para os que têm mais de 50 anos, esse dia foi muito. Ou quase tudo. Foi a liberdade de ler, de ver, de ouvir, de falar, de andar na rua, de trabalhar, de estudar, de namorar e de procurar profissão e carreira. Até esse dia, havia futuros hipotecados. Vidas suspensas. Censores empenhados. Espiões cuidadosos. Polícias atentos. Denunciantes zelosos. Companhias a evitar. De repente, quase realmente de um dia para o outro, tudo parecia possível. Tudo era possível. A paz. O trabalho. A viagem. O namoro. O conhecimento. O teatro. Recordar Abril é recordar tudo. Por isso é tão festejado. Não é unânime, mas é universal, ou consensual, como se quiser."

O que é afinal "Abril"?
Uma revolução? Um dia? Um Ideal? Uma promessa?


Neste seu livro, o sociólogo e ensaísta António Barreto convida-nos a olhar para o 25 de Abril com lucidez, espírito crítico e sentido histórico. Mais do que celebrar a data, o autor propõe compreender, revisitando os acontecimentos, o que mudou e o que ficou por cumprir.
Recorda que os direitos conquistados em Abril exigem memória, responsabilidade e participação.  cívica. Ler sobre Abril é uma forma de preservar a nossa história e transmiti-la às novas gerações. Ajuda-nos a entender o que mudou em Portugal e porque a democracia continua a ser uma conquista que se deve cuidar todos os dias. 

Ler Abril é compreender a Liberdade
É conhecer o passado para valorizar o presente e proteger o futuro



António Barreto nasceu a 30 de outubro de 1942 no Porto. Viveu em Vila Real, Coimbra, Genebra e em Lisboa. Até 1974, foi exilado político
Licenciou-se, em 1968 e, doutorou-se em 1985, em Sociologia na Universidade de Genebra. Foi Assistente na Universidade de Genebra e Investigador no Instituto das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social. 
Em 1974 regressou a Portugal. Foi Professor na Universidade Nova de Lisboa e Investigador na Universidade Católica e no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Foi deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República. 
Em 1975 foi Secretário de Estado do Comércio Externo, em 1976 foi Ministro do Comércio e Turismo e Ministro da Agricultura e Pescas.
Em 2004 foi Prémio Montaigne
Sócio da Academia das Ciências desde 2008. Presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos de 2009 a 2014. Fundador da PORDATA. É, desde 1995, membro do Júri do Prémio Pessoa.
De 2009 a 2011 foi Presidente das Comemorações do Dia de Portugal.
Recebeu, em 2012 a Grã-cruz da Ordem Militar de Cristo e, em 2017 a Grã-cruz da Ordem da Liberdade.
Desde 1990 é colunista do jornal Público.
António Barreto é autor de livros nas áreas da sociologia, da política, da fotografia e do Douro. Coordenador do Dicionário de História de Portugal, 1925/1974 (volumes 7,8 e 9). 
Autor da série de televisão Portugal, Um Retrato Social e da longa metragem Horas do Douro.


Abril é o melhor mês.
 Mistura memórias e desejos. Cravos e jacarandás.
                                                                                                          Público, março de 2024







abril 15, 2026

DEMOCRACIA



Estamos em Lisboa, no início de 1975, numa casa grande e vazia,  situada entre o Largo do Rato e as Amoreiras, onde 12 amigos se reúnem. Há um país em processo revolucionário, poucos meses após o derrube da ditadura. Há entre eles muita incerteza no ar e uma pergunta por todos partilhada: 
O que fazer com toda esta liberdade.

Num tempo de celebração e reflexão, este romance que hoje divulgamos, recorda-nos que a democracia não é apenas uma herança do passado, mas sim um compromisso permanente com o futuro.
O autor revisita o país que saiu da Revolução dos Cravos, acompanhando as transformações, as expetativas e os desafios vividos ao longo de 50 anos de liberdade. Através de personagens comuns, o romance mostra que a democracia não é apenas um regime político, mas uma experiência vivida no quotidiano de cada cidadão. Somos transportados para o Portugal que nasceu após o 25 de Abril e vamos acompanhando as mudanças, esperanças e desafios vividos ao longo de cinco décadas de liberdade.


Alexandre Andrade nasceu em Lisboa, em 1971, cidade onde reside e desenvolve a sua atividade literária e académica. É professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e concilia a carreira universitária com a escrita de ficção, sobretudo conto e romance. A sua obra é marcada pela reflexão sobre a sociedade, a política e a vida urbana. Colaborou regularmente em revistas literárias como a Granta, LER e Ficções, e participou em projetos coletivos de escrita e teatro.
Em 2017, recebeu o Prémio PEN Clube Português de Narrativa pela obra "Descrição Guerreira e Amorosa da Cidade de Lisboa", reconhecimento que consolidou o seu lugar no panorama literário nacional.



Neste romance, Alexandre Andrade convida-nos a olhar para o caminho 
percorrido desde o 25 de Abril e a refletir sobre o valor da liberdade,
 da participação e da responsabilidade cívica.






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