Uma Biblioteca é muito mais do que um lugar onde se guardam livros. É um espaço de descoberta, de encontro com diferentes culturas, épocas e formas de olhar o mundo. Entre as suas principais funções está a de dar a conhecer novos autores, promovendo vozes consagradas e revelando escritores menos conhecidos, mas igualmente capazes de surpreender e cativar os leitores.
É o caso do autor que hoje apresentamos, o escritor búlgaro Gueorgui Gospodinov, nascido a 7 de janeiro de 1968, na cidade de Yambol.
Licenciou-se em Filologia Búlgara na Universidade de Sófia e iniciou a sua carreira literária como poeta na década de 1990.
Considerado uma das vozes mais importantes da literatura europeia contemporânea, é poeta, romancista, contista, dramaturgo e ensaísta, tendo a sua obra sido traduzida em mais de vinte e cinco línguas.
A sua obra é profundamente marcada pela experiência da Bulgária durante o período comunista e pelas transformações políticas e sociais do continente europeu.
Ler Gospodivov é entrar num universo literário onde as pequenas histórias do quotidiano se cruzam com as grandes questões da humanidade.
Como afirmou a escritora Olga Tokarczuk, a sua escrita é "uma literatura requintada sobre a nossa perceção do tempo e da sua passagem."
O seu romance que hoje divulgamos, Refúgio no Tempo,
foi o vencedor do Internacional Booker Prize 2023,
e obteve o Premio Strega Europeo 2021
Sobre ele, a presidente do júri, Leila Slimani, declarou: "O nosso vencedor é um romance brilhante, cheio de ironia e melancolia. É um trabalho profundo que lida com uma questão muito contemporânea: o que nos acontece quando as nossas memórias desaparecem?"
"No andar de cima instalaram-se os anos 50. Ali era o reino de Elvis Presley, de Fatt Domino, Dizzy Gillespie, Miles Davis, onde se podia ouvir toda aquela maravilhosa mistura de jazz, rock and roll, pop, bem como o sinfónico, mas já fora de moda, Frank Sinatra. Ali estavam Intriga Internacional, Hitchcook, Gary Grant, As Noites de Cabíria, Fellini, Mastroianni, Brigitte Bardot, Dior... O mundo estava a recuperar da guerra e tinha vontade de viver.
Uma parte do mundo conseguia fazê-lo com uma relativa facilidade. Para a outra parte, havia uma zona separada ao fundo do corredor, alguns apartamentos destinados aos países do Leste. Um para os anos 50 da Europa de Leste, um outro só para os anos 50 soviéticos (bem financiados, aliás). De maneira semelhante, foram reconstituídos os anos 50 na China."
Refúgio no Tempo é um daqueles romances que desafiam as fronteiras entre a memória, a História e a imaginação. Gaustine cria uma clínica para doentes de Alzheimer onde cada piso recria uma década do século XX, com os seus móveis, músicas, jornais e objetos, permitindo aos pacientes reencontrarem as suas recordações. Mas aquilo que começa como uma terapia para a perda de memória transforma-se numa reflexão profunda sobre a sociedade contemporânea. A nostalgia deixa de ser um sentimento individual e converte-se num fenómeno coletivo: países inteiros desejam regressar ao seu passado, escolhendo as décadas em que gostariam de voltar a viver.
O autor lança então uma pergunta inquietante: O que acontece quando uma sociedade prefere refugiar-se nas memórias em vez de enfrentar o futuro?
Será possível viver apenas de recordações?
Uma leitura fascinante para quem aprecia romances inteligentes, originais e capazes de lançar um olhar crítico sobre o nosso tempo através da memória do passado.






















