junho 24, 2026

DESCOBRIR NOVOS AUTORES É UMA DAS GRANDES MISSÕES DA BIBLIOTECA

 


Ao divulgar novos livros e novos escritores, a biblioteca convida cada leitor a sair da sua zona de conforto, a explorar outros géneros literários e a viajar por diferentes geografias e sensibilidades. Cada livro ou autor desconhecido que chega às estantes é uma oportunidade para encontrar uma história inesquecível ou um autor que passe a fazer parte das suas leituras favoritas.
Ler novos autores é alargar horizontes e descobrir que a literatura não tem fronteiras. E a biblioteca, enquanto espaço de livre acesso à cultura e conhecimento, assume o papel de mediadora dessa descoberta.


Promover essa descoberta é democratizar a cultura. Quando uma biblioteca aposta num novo autor, garante que a literatura continua viva, dinâmica e em constante renovação.
Afinal, todos os grandes clássicos de hoje foram, um dia, tesouros escondidos à espera de serem descobertos numa estante.

Porquê arriscar um autor desconhecido?
Pela surpresa total, pela  sensação de ler algo sem qualquer expetativa, 
ler histórias em formatos ousados, temas inovadores.
Arrisque, leia um autor desconhecido.

Antes de ir de férias, 
visite-nos e aceite as nossas sugestões de leitura.






junho 17, 2026

REFÚGIO NO TEMPO - UMA VIAGEM AO PASSADO QUE QUESTIONA O FUTURO


Uma Biblioteca é muito mais do que um lugar onde se guardam livros. É um espaço de descoberta, de encontro com diferentes culturas, épocas e formas de olhar o mundo. Entre as suas principais funções está a de dar a conhecer novos autores, promovendo vozes consagradas e revelando escritores menos conhecidos, mas igualmente capazes de surpreender e cativar os leitores.


É o caso do autor que hoje apresentamos, o escritor búlgaro Gueorgui Gospodinov, nascido a 7 de janeiro de 1968, na cidade de Yambol
Licenciou-se em Filologia Búlgara na Universidade de Sófia e iniciou a sua carreira literária como poeta na década de 1990.
Considerado uma das vozes mais importantes da literatura europeia contemporânea, é poeta, romancista, contista, dramaturgo e ensaísta, tendo a sua obra sido traduzida em mais de vinte e cinco línguas.
A sua obra é profundamente marcada pela experiência da Bulgária durante o período comunista e pelas transformações políticas e sociais do continente europeu.
Ler Gospodivov é entrar num universo literário onde as pequenas histórias do quotidiano se cruzam com as grandes questões da humanidade.
Como afirmou a escritora Olga Tokarczuk, a sua escrita é "uma literatura requintada sobre a nossa perceção do tempo e da sua passagem."


O seu romance que hoje divulgamos, Refúgio no Tempo,
 foi o vencedor do Internacional Booker Prize 2023,
e obteve o Premio Strega Europeo 2021


Sobre ele, a presidente do júri, Leila Slimani, declarou: "O nosso vencedor é um romance brilhante, cheio de ironia e melancolia. É um trabalho profundo que lida com uma questão muito contemporânea: o que nos acontece quando as nossas memórias desaparecem?"


"No andar de cima instalaram-se os anos 50. Ali era o reino de Elvis Presley, de Fatt Domino, Dizzy Gillespie, Miles Davis, onde se podia ouvir toda aquela maravilhosa mistura de jazz, rock and roll, pop, bem como o sinfónico, mas já fora de moda, Frank Sinatra. Ali estavam Intriga Internacional, Hitchcook, Gary Grant, As Noites de Cabíria, Fellini, Mastroianni, Brigitte Bardot, Dior... O mundo estava a recuperar da guerra e tinha vontade de viver.
Uma parte do mundo conseguia fazê-lo com uma relativa facilidade. Para a outra parte, havia uma zona separada ao fundo do corredor, alguns apartamentos destinados aos países do Leste. Um para os anos 50 da Europa de Leste, um outro só para os anos 50 soviéticos (bem financiados, aliás). De maneira semelhante, foram reconstituídos os anos 50 na China."


Refúgio no Tempo é um daqueles romances que desafiam as fronteiras entre a memória, a História e a imaginação. Gaustine cria uma clínica para doentes de Alzheimer onde cada piso recria uma década do século XX, com os seus móveis, músicas, jornais e objetos, permitindo aos pacientes reencontrarem as suas recordações. Mas aquilo que começa como uma terapia para a perda de memória transforma-se numa reflexão profunda sobre a sociedade contemporânea. A nostalgia deixa de ser um sentimento individual e converte-se num fenómeno coletivo: países inteiros desejam regressar ao seu passado, escolhendo as décadas em que gostariam de voltar a viver.
O autor lança então uma pergunta inquietante: O que acontece quando uma sociedade prefere refugiar-se nas memórias em vez de enfrentar o futuro?


Será possível viver apenas de recordações?

Uma leitura fascinante para quem aprecia romances inteligentes, originais e capazes de lançar um olhar crítico sobre o nosso tempo através da memória do passado.



junho 12, 2026

NOITES BRANCAS

 Para leitura do seu fim de semana, sugerimos um livro curto, delicado e profundamente humano.
é uma das mais belas histórias sobre a solidão, o sonho e a esperança no amor.


Mas será o amor suficiente para transformar um sonho em realidade?

Nesta novela, acompanhamos um jovem solitário que vagueia pelas ruas de São Petersburgo durante as luminosas noites de verão. Numa dessas caminhadas, conhece Nástienka, uma jovem que também carrega as suas inquietações de desejos. Ao longo de quatro noites e uma manhã, nasce entre ambos uma ligação intensa, feita de confidências, ilusões e promessas.
Publicado em 1848, é uma história breve, mas cheia de emoção, que nos faz refletir sobre a necessidade de sermos vistos, compreendidos e amados.


Em 1957 o realizador italiano Luchino Visconti adaptou esta obra ao cinema, com Marcello Mastroianni e Maria Schell nos protagonistas e ganhou o Leão de Prata no Festival de Cinema de Veneza. A banda sonora foi assinada por Nino Rota, o compositor preferido de Federico Fellini.

Uma leitura perfeita para quem acredita no poder dos encontros inesperados e na beleza, por vezes dolorosa, dos sonhos



"Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites que apenas são possíveis quando somos jovens, amigo leitor. O céu estava tão cheio de estrelas, tão luminoso, que quem erguesse os olhos para ele ver-se-ia forçado a perguntar a si mesmo: será possível que sob um céu assim possam viver homens irritados e caprichosos?"

Fiódor Dostoiévski nasceu a 11 de novembro de 1821, em Moscovo, na Rússia e é hoje considerado um dos maiores escritores da literatura universal. A sua obra mergulha profundamente na alma humana, explorando temas como a culpa, a liberdade, a fé, a pobreza, o sofrimento e a redenção.
Filho de um médico miliar, cresceu num ambiente disciplinado, mas desde cedo revelou uma grande sensibilidade literária. Formou-se em Engenharia Militar, em São Petersburgo, mas abandonou a carreira para se dedicar à escrita.
Em 1849, a sua vida sofreu uma reviravolta dramática: foi preso por participar em círculos intelectuais considerados subversivos pelo regime czarista. Condenado à morte, viveu o trauma de um falso fuzilamento, sendo a sentença comutada, no último momento, para quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria. Esta experiência marcou profundamente a sua visão do mundo e influenciou todo a sua obra literária.
Após o regresso do exílio, Dostoiévski enfrentou dificuldades financeiras, problemas de saúde já que sofria de epilepsia, e uma forte dependência do jogo. Apesar disso, escreveu alguns dos romances mais importantes da história da literatura, que o leitor pode encontrar na nossa Biblioteca Municipal. 
Os seus romances são verdadeiras explorações filosóficas e tratados psicológicos do comportamento humano. Por isso é frequentemente estudado não só na literatura , mas também na filosofia, psicologia e teologia.
Fiódor Dostoiévski morreu a 9 de fevereiro de 1881, em São Petersburgo, deixando uma obra que continua a fascinar leitores em todo o mundo, que reconhecem nele um autor que soube compreender como poucos as contradições da condição humana.

Noites Brancas 
é sobre como um momento breve de amor, ou melhor, 
como um momento breve de ilusão de amor, pode deixar marcas para a eternidade.




junho 05, 2026

UMA HEROÍNA ESQUECIDA PELA HISTÓRIA



Há livros que nos transportam para lugares distantes, não apenas geografias diferentes, mas formas diferentes  de sentir, resistir e recordar. O livro que hoje divulgamos junto dos nossos leitores, A Mulher sem Sepultura, da escritora argelina Assia Djebar, é uma dessas obras raras que abre portas para outras latitudes e outras vozes, tantas vezes ausentes das estantes mais procuradas. 
Inspirado na história real de Zoulikha, heroína da resistência argelina desaparecida durante a luta contra a ocupação francesa, este romance mistura memória, testemunho e poesia para reconstruir a vida de uma mulher cuja ausência continua viva. 
Mais do que contar uma história individual, Assia Djebar dá voz às mulheres silenciadas pela guerra, pela tradição e pelo tempo.
A escrita é delicada, intensa e profundamente humana. Ao longo das páginas, o leitor entra numa Argélia marcada pela violência e pela esperança, mas também descobre emoções universais tais como a coragem, a perda, a dignidade e a necessidade de preservar a memória.

Ler A Mulher sem Sepultura é também descobrir uma literatura diferente da habitual tradição europeia ou norte-americana. É viajar através da cultura magrebina, conhecer outras realidades históricas e perceber como a literatura pode aproximar mundos aparentemente distantes.
Para quem gosta de romances marcantes, de histórias de mulheres fortes e de livros que nos ajudam a olhar o mundo de uma forma mais ampla, esta é uma leitura indispensável.


"Assia Djebar, oscilando entre a esperança e o desespero, narra de forma emocionante a luta travada pelas mulheres para poderem, finalmente, olhar de frente o Sol"
                                                                           Le Monde


Assia Djebar, pseudónimo literário de Fatema Zohra Imalayen, nasceu a 30 de junho de 1936, na cidade de Cherchell, na Argélia, então sob o domínio colonial francês, e tornou-se uma das mais importantes vozes da literatura francófona do século XX.
Escritora, historiadora, cineasta e intelectual, dedicou grande parte da sua obra à condição das mulheres argelinas, à memória coletiva e às marcas do colonialismo.
Filha de um professor, teve acesso à educação numa época em que muitas raparigas argelinas eram privadas da escola. Estudou em Argel e mais tarde na prestigiada École Normale Supérieure, em Paris, sendo uma das primeiras mulheres argelinas a frequentar aquela instituição.
Ativista na sua juventude, foi expulsa temporariamente daquela instituição após participar em greves estudantis a favor da independência da Argélia.


Em 2005, Assia Djebar foi eleita para a Academia Francesa, tornando-se a primeira autora do Magrebe a integrar esta instituição, um reconhecimento internacional da importância da sua obra literária e intelectual.
O seu nome foi apontado como forte candidato ao Prémio Nobel da Literatura por inúmeras vezes e os seus livros estão traduzidos em 23 línguas.
Faleceu em Paris, a 6 de fevereiro de 2015, mas continua a ser uma referência essencial da literatura africana e francófona contemporânea e uma das maiores vozes da emancipação das muçulmanas. Os seus livros permanecem atuais pela forma como abordam temas como a liberdade, a memória, a guerra e o papel das mulheres na sociedade.


Porque a Literatura não tem fronteiras, cada novo livro vindo de outras latitudes é uma oportunidade de alargar horizontes.





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